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A cutia
Diz-nos uma antiga fábula que certa vez a cutia, sentindo-se
desrespeitada pelos outros animais, decidiu mudar-se sem deixar o
endereço. Escolheu morar junto a um ingazeiro e, quando preparava a
nova casa, eis que aparece a raposa e põe-se a tagarelar: - Como
vai, cutia? Por que está toda empoeirada? - Nada de especial, mas
não quero que ninguém saiba. Direi à senhora porque confio na sua
discrição - e a cutia segredou-lhe ao ouvido: - Fiz uma nova casa
aqui, junto à raiz do ingazeiro. - Nova casa? Mostre-me o local
exato e prometo guardar bem o segredo... A raposa saiu toda faceira,
por ser achada digna de guardar sigilo. E ia tão distraída que nem
percebeu que o coelho cruzava seu caminho. - Onde vai, raposa?
Parece-me tão distraída... - comentou o coelho, curioso. - Estava
analisando o local da nova moradia da cutia. Desculpe-me... - E ela
está de casa nova? Eu nem sabia disso - concluiu o coelho. - Mas não
diga nada a ninguém, pois é segredo de Estado - pediu a raposa.
Encontrando o caxinguelê, o coelho comunicou o fato e pediu segredo.
Continuou seu caminho e passou pelo macaco; parando um pouco,
contou-lhe ao ouvido sobre a nova casa da cutia, pedindo-lhe que não
contasse aos outros animais. Por sua vez o macaco, encontrando-se
mais tarde com a capivara, passou a notícia para frente, dizendo que
era do mais alto sigilo. Ora, a capivara não precisou andar muito
para se encontrar com a tartaruga e também lhe transmitiu a notícia
sob promessa de guardar o segredo. Porém, mal encontrou-se com o
lobo já foi contando o que ouvira... O certo é que à tardinha todos
os pássaros, animais e répteis da floresta já sabiam que a cutia se
mudara e que a nova residência ficava junto à raiz do velho
ingazeiro, que se erguia ao lado da velha ponte. O resultado foi
que, no decorrer do dia, todos já haviam passado por lá e feito uma
visita de cortesia à companheira. A cutia sentiu-se ofendida com a
atitude da raposa, a quem havia demonstrado total confiança ao lhe
passar o seu segredo. E foi dessa circunstância que lhe surgiu uma
idéia: Arrancou a placa que indicava sua antiga residência e a
colocou à porta da nova casa. A placa dizia: 'Aqui mora a Cutia.'
Porém, quando reinou absoluto silêncio na floresta, ela voltou a
instalar-se na antiga moradia e ali ficou em paz por muito tempo...
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