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A palavra nas ruas Philip Yancey
“Se você está escrevendo um livro sobre oração, você deveria passar
algum tempo com os sem-teto”, disse à minha esposa uma veterana no
ministério urbano. “Pessoas da rua oram como uma necessidade, e não
um luxo.”
O conselho dela fez sentido, principalmente depois que eu
entrevistei Mike Yankoski, um estudante da faculdade Westmont
College que, junto com um amigo, abandonou a escola por cinco meses
para viver nas ruas. O livro dele, Under the Overpass (Debaixo da
passarela) conta a história. Mike me falou que os sem-teto, tendo
alcançado o fundo do poço, não perdem tempo construindo uma imagem
ou procurando conforto. E eles oram sem pretensão, num contraste com
o que encontramos em algumas igrejas.
Mike estima que um quarto dos sem-teto que ele conhece têm uma fé
cristã ativa. Quando visitei uma casa de café para desabrigados em
Denver, não foram poucas as pessoas de rua que encontrei que se
dispunham a falar sobre oração. Ben, um contorcido e articulado
homem, que tinha freqüentado uma faculdade, me contou de várias
experiências de oração. Ele disse: “Deus me mandou um ciclista com
as ferramentas necessárias para que eu pudesse consertar o carro de
umas pessoas que tinham me oferecido carona. Pense na possibilidade
de isso acontecer na cidade de Salina, no Kansas!”
Ao ouvir os sem-teto relatando as suas orações, fui atingido por
estas súplicas realistas e as suas semelhanças com a oração do
Senhor. “O pão nosso de cada dia”: todos eles tinham histórias de
ficar sem comida, orar e, então, achar uma panqueca ou uma pizza
intacta. “Livra-nos do mal”: vivendo nas principais ruas, esses
crentes oram isso diariamente. “Perdoa as nossas dívidas”: no fundo,
cada um deles carrega segredos de vergonha e arrependimento.
Depois de 25 anos de ministério entre os sem-teto, John, um
conselheiro experiente, tem uma teoria: muitos dos desabrigados
sofrem do problema de como se ligar a uma coisa. Na infância, eles
nunca aprenderam a se ligar a seus pais ou outras pessoas, e nunca
aprenderam a se conectar com Deus também. Eles acham difícil assumir
um compromisso, se abrir e confiar. Eles vêem o mundo como um lugar
inseguro e estranho.
John notou que esse efeito de agitação é um descontrole. “Algumas
vezes, as pessoas com quem eu trabalho vão à loucura porque não
agüentam estar sozinhas com seus pensamentos obscuros e seus
segredos. Um amigo meu trabalhava em um ministério parecido com o
nosso. Ele tinha segredos sobre falências e pressões financeiras que
nunca contou para ninguém. Um dia, sua esposa entrou em casa e o
encontrou pendurado por uma corda amarrada ao corrimão”.
Do meu tempo com os sem-teto, aprendi um novo significado para a
oração. Ela pode ser um lugar seguro para desabafar segredos. Alguns
de nós somos afortunados o suficiente para ter um companheiro ou um
amigo de confiança para dividir nossos segredos. Senão, pelo menos
temos Deus, que conhece os nossos segredos antes mesmo que nós os
confessemos.
O fato de ainda estarmos vivos, e sermos amados, demonstra que Deus
tem mais tolerância por qualquer coisa que esses segredos
representam do que o crédito que damos a Ele.
“Se eu estiver certo sobre esses distúrbios”, John disse, “o melhor
ministério que eu posso oferecer é um relacionamento a longo prazo.
Espero que, através desses anos e décadas, algumas pessoas de rua
tenham aprendido a confiar em mim como alguém a quem podem contar
seus segredos. Espero que essa confiança gradualmente se espalhe
para Deus.
Digo às pessoas que trabalham com os sem-teto que o contato visual e
a conversa podem ser mais importantes que comida, dinheiro ou
versículos bíblicos. Eles precisam se conectar de uma forma simples
com outro ser humano, alguém que os vê como pessoas dignas.”
Alguns dias depois, encontrei um poema de Rainer Maria Rilke,
escrito na forma de uma oração:
“Faça com que os pobres não mais sejam desprezados e abandonados.
Olhe para eles como se esperassem como flores selvagens, que não têm
mais onde crescer”.
(Tradução de Rachel Vieira Belo de Azevedo
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